Que queiramos romantizar o trilo dos pássaros – uma introdução ao projeto Vozes do Inferno Verde – Amazônia Deslendada     de Renato Mismetti Que queiramos romantizar o trilo dos pássaros é já um sinal de nossa carência e fragilidade, ainda que isso, como fenômeno acústico, possa ser agradável ao nosso ouvido tão maltratado pelo ruído moderno. Verdade é que pássaros trilam para sobreviver – o que não diminui o valor do investimento afetivo que fazemos. E o ser humano mesmo? Qual o papel real de sua arte cantadeira? Na verdade, cantamos também pra sobreviver. O que seria de nós sem as modulações da voz, que dizem o que a palavra “prosadeira” não pode fazer?! Se este “mundo modulatório” de um momento para o outro se calasse, então saberíamos o quanto nos deve ser caro. Dizem que os sofredores, apaixonados e místicos são mais sensíveis à Música. Não será porque têm as janelas da alma totalmente abertas? Já há quase um século Claude Debussy, em A Música de hoje e de amanhã – numa de suas tantas sagazes e instigantes entrevistas – chama a atenção à essencialidade do ouvir, do perceber e do sentir: Não se presta atenção em torno de si aos mil ruídos da natureza, não se espreita suficientemente essa música tão variada que ela nos oferece com tanta abundância. Ela nos envolve, e temos vivido no meio dela até hoje sem nos darmos conta disso. Esta é para mim a nova via. Mas acredite, eu mal a percebi, pois o que resta a fazer é imenso. Não simplesmente modéstia, porém também grandeza de alma revela Debussy buscando aquela “nova via”, pela qual trilhou de maneira genial... Por onde “andarão” pois nossos ouvidos hodiernos?! Portamos então, neste projeto, incenso e mirra a Euterpe, a Érato, a Calíope e a Melpômene (num “princípio órfico” que parece obviedade, mas não é, como já tratamos no projeto anterior  mundo  mundo  vasto  mundo) e vemos prazeirosos uma Musa cantar com a Iara, outra namorando o Boto, outra a cavalgar a Boiúna e a outra ainda aprendendo safadeza com Macunaíma. Queremos assim adentrar a esfera metapoética para dizer o que a palavra enclausurada em seu universo, quer gráfico quer cognitivo, não consegue, buscando uma relação interativa e sincera – às vezes aparentemente contraditória ou mesmo caótica – da palavra com seu correspondente sonoro. Com que profundidade lírica observou Guimarães Rosa: ... a gente sabe que estes silêncios estão cheios de mais outras músicas! É justamente com o entrelaçamento destes dois campos-irmãos do sonhar e do criar, do dizer multidimensional, que travamos nossa luta diária nesta série de Poesia&Música – Sonoridades Brasileiras. Aventura emocionante! De novo não resisto a lembrar o grande Rosa: O sentir forte da gente o que produz os ventos. Às velas que nos conduzem, dão impulso, além dos compositores e poetas, que nos honram com sua participação, também muitos outros profissionais de alta competência e reputação – da Alemanha, do Brasil, da Inglaterra e da França. Digno de nota é também o fato de que tanto as traduções literárias quanto os artigos que integram este caderno, assim como suas ilustrações, foram feitos especialmente para ele, sendo ainda muito valiosos os depoimentos autobiográficos e os comentários sobre as obras deste programa, escritos pelos próprios compositores. Muitas e muitas outras pessoas embarcaram também nessa viagem aventureira e permanecerão aqui anônimas, merecendo contudo nosso sincero reconhecimento e carinho. Nesta viagem não há porto seguro nem destino único. Que não se entenda de maneira nenhuma que a “Amazônia” deste projeto seja um espaço geográfico delimitado. Não. 0 “deslendamento” que pretendemos alerta contra a destruição da natureza como um todo, contra injustiças, contra o massacre de culturas e da sensibilidade – contudo é também a metáfora dos sentimentos mais “elementares”, do mundo sensível mesmo, que se embota cada vez mais, ironicamente numa época em que os “bens do espírito” se “democratizaram”!... 0 Brasil vem assumindo uma presença internacional cada vez maior. Carnaval, samba, lambada, bossa-nova, caipirinha, requebrantes traseiros tostados à praia, criminalidade infantil, corrupção política são porém os clichês que o mundo conhece desse país gigante. Também os cultos religiosos, como candomblé, umbanda ou
Guimarães Rosa
Renato Mismetti