O projeto de concerto do ano de 2002 festeja sobretudo o jubileu de dois poetas: o brasileiro Carlos Drummond de Andrade em seu centenário e austríaco Nikolaus Lenau em seu bicentenário. O caráter sombrio e profundamente melancólico da poesia de Lenau, onde se expressa nitidamente o romântico sentimento de não se ter nenhuma pátria, encontra sua imagem oposta na obra de Drummond, que embora plena de ironia, muitas vezes de ceticismo, declara grande fraternalismo e procura de uma amor simples e profundo, como nos belíssimos versos da Canção amiga: “Caminho por uma rua que passa em muitos países. Se não me vêem, eu vejo e saúdo velhos amigos”.  A dramaturgia do programa desenvolvida por Renato Mismetti parte, então, de cinco poemas de Lenau musicados ainda em 1894 por Alberto Nepomuceno em língua original, e vai até três grupos de três canções sobre textos de Drummond, compostos especialmente para este concerto por Kilza Setti e Ricardo Tacuchian, que dedicaram essas obras aos intérpretes deste projeto, e pelo compositor Edino Krieger. Em diálogo com os dois poetas centenários
apresenta-se a contemporânea Hilda Hilst, com poemas musicados pela compositora romena Violeta Dinescu e pelo brasileiro Almeida Prado, o qual também dedicou seu ciclo de canções a Mismetti e de Brito. Além disto, serão apresentadas duas obras de grande fôlego – com caráter mesmo de cantatas – de Villa-Lobos: Poema de Itabira e de Marlos Nobre: O canto multiplicado.

O valor e o alcance deste projeto não se deixa medir somente pela participação e apoio das personalidades musicais aqui citadas; também a colaboração de figuras representativas do mundo das letras, como tradutores, críticos e especialistas em literatura. Todos os textos sobre as obras e os autores, assim como as traduções dos poemas, integrantes do caderno de concerto estão sendo elaborados especialmente para este projeto por pessoas de alta competência e reputação, tanto  no Brasil como na Europa. Um dos nomes que representam a participação brasileira é o da teatróloga, crítica e tradutora Bárbara Heliodora e, da participação alemã, o mais conhecido e antigo tradutor alemão vivo: Curt Meyer-Clason. Os dois também estarão presentes à primeira audição mundial de 2002 em Bayreuth, assim como os seis compositores.